O
que disse? Sempre temos conceito? O que isso quer dizer? Eu, como
estudante de Arquitetura e Urbanismo, tenho para mim que significa
sempre
colocar um contexto maior e abstrato em tudo que criamos, mesmo que seja
um
contexto só nosso, como provavelmente é.
Há quem diga que o conceito é necessário, há quem diga que não, seria óbvio se
tais afirmações viessem de um arquiteto e de um cliente respectivamente?
Infelizmente sim. Situação essa, muito comum nos dias
de hoje, de um lado estão os arquitetos tidos como Deuses e assim com um
"questionável" dom da criação adquirido, e do outro seus clientes,
pessoas que levam seus sonhos e expectativas a fim de sua concretização em
forma de projeto arquitetônico, seja de uma casa popular ou uma mansão, mas que
seja de seu gosto.
Diferente do arquiteto Le Corbusier ao trazer as chamadas
"casas em série" pensando que todas as pessoas possuem as mesmas
necessidades, e da tradicional arquitetura como obra de arte, há uma notória
demanda para soluções que se baseiem verdadeiramente no desejo de cada cliente.
Em outras palavras, acontece um certo equívoco arquitetônico, o que deveria ser
prioridade passa a ser secundário, o conceito criado pelo arquiteto se
sobressai as vontades do cliente e tais fatores, consequentemente, levam a
grande parte das demandas, agora populares, serem produzidas pelos mesmos traduzindo
o tema da autoprodução e ela, por sua vez, acontece em meio a decisões e
conhecimentos dos próprios usuários e mão de obra, ou seja, nada é planejado.
Dizer que existem divergências entre a
prática tradicional de projetar e a autoprodução é dizer o mínimo, tanto que a
última, segundo certos autores, nem considerada arquitetura é. Entretanto, a
culpa por tais divergências não pode ser atribuída ao contratado nem muito
menos ao contratante, nós estudantes somos ensinados assim. Nós somos
designados a criar espaços arquitetônicos que nada valem se não existir um
“conceito” apesar da maioria das nossas próprias expectativas não se submeterem
a ele, pois se tornou hoje uma espécie de luxo, algo que não é fundamental e
por isso, valorizado por poucos.
Em contrapartida, no momento em que
deixamos prevalecer a nossa vontade em cima da vontade de nossos clientes está
errado. De que adianta o significado que damos ao projeto se ele não satisfazer
o maior interessado? De um certo modo, o que poderia ser a individualidade do
projeto, ou até mesmo, o que faria a concepção arquitetônica se tornar única,
mas ao mesmo tempo distante do desejo do cliente deixa de ser conceito para
mim, é realmente um problema. Uma coisa não exclui a outra, a identidade e a singularidade
podem vir de ambas as partes.
Então concluímos assim, um equilíbrio entre
conceito projetual e o sonho de uma moradia, o respeito ao trabalho do arquiteto
e o respeito aos desejos do cliente, e por fim, práticas mais adequadas a
demandas mais populares. Apesar de todas as barreiras até então estabelecidas
para uma proposta como essa dar certo, que o objetivo, enfim, seja comum. Uma
melhor arquitetura para todos em um âmbito social e justo que independa das
hierarquias e do capitalismo. Capitalismo de massa que vem também polarizando e
hierarquizando os dois lados da moeda.
Ísis Oliveira Teixeira
Graduanda em Arquitetura e Urbanismo
UFOP
Nenhum comentário:
Postar um comentário